segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Assim como eu


Não fui no casamento dele e ele não foi no meu. Com muita dor no coração dos dois lados, sim, mas as agendas simplesmente não bateram. Ele me ligou para confirmar presença e eu dei uma bronquinha boba: "Mas só você pra casar num domingo à noite a 800 km de distância, viu?" Ele deu risada e disse que nem criança arrependida: "Ah, vai, um monte de gente casa domingo à noite, não sou só eu..." Só faltou emendar o seu clássico "Tá lôca, Laurinha??" Ele era um dos poucos amigos que até hoje só conseguem me chamar pelo apelido de adolescência. Foi a última vez que falei com ele.

Assim como eu, ele tinha entrado há pouco na casa dos 30 anos e, como nessas horas a gente não consegue fugir dos clichês, tinha, assim como eu, a vida inteira pela frente. Assim como eu, ele casou há menos de um ano e devia ter, assim como eu, mil planos e sonhos pra realizar com o seu amor. Ele amava música, assim como eu. Bom, na verdade, bem mais que eu. Tinha uma família longe, assim como eu, porque, também como eu, tinha resolvido se apaixonar por tudo que não estava lá. E no meio disso tudo, ele levava sua vida normalmente, assim como eu. Naquela noite, ele deve ter tomado seu banho, vestido o pijama, escovado os dentes, dado boa noite a quem estava por ali e deitado na cama, assim como eu. Talvez tenha também, assim como eu, deixado a louça pra lavar no dia seguinte, simplesmente porque não estava a fim. Só que, no outro dia, ele não acordou. Eu, sim.

Nesse dia, assim como eu, muita gente deve ter se pegado dizendo aquele outro clichê: "para morrer basta estar vivo". E grande parte dessa gente deve ter passado a noite em claro, também assim como eu. Assim como eu, eles devem ter ficado acordados, olhando para o teto, pensando, entre um soluço e outro, na fragilidade da vida, na preciosidade de quem se ama. Tentando entender e pensando "e se acontece comigo?" ou, pior, "e se acontece com outra pessoa que eu amo?". Pensando que amanhã pode ser tarde ou que pode, simplesmente, não ser mais.

Mas aí eu lembro que aprendi, junto com ele, que não acaba aí. Na verdade acho que ele deve ter aprendido bem melhor do que eu, que acabei com uma fé muito da sem-vergonha, mas que ajuda a consolar nessas horas. Essa fezinha mixuruca me diz que, pra ele, tudo bem eu não estar lá hoje, às 15h, porque, assim como eu, ele também não podia estar presente em todas as coisas importantes que acontecem lá. E, assim como eu, ele sabe que amigo é amigo, não importa onde.

4 comentários:

  1. Teu texto continua invejável, como sempre. E, passados esses percalços recentes, quando a gente vai tomar uma cerveja, ô intercontinental?

    ResponderExcluir
  2. Pois é, passados esses percalços, acho que todo mundo tá precisando de uma cerveja. Mas como eu sempre dispenso a cerveja, por enquanto fico com uns vinhos franceses mesmo =P
    Mas em janeiro estou de volta de vez e até topo um surraxquinho daquele que só tu sabes fazer. Sem cerveja.

    ResponderExcluir
  3. Texto lindo, se a Gi vai ler vai cair em lagrimas ainda na primeira parte.
    Saudade de vocês. Como foi Alemanha? Quando vamos tomar a próxima cerveja? Aonde estão vocês?

    Bjs e abraços, Heiko.

    ResponderExcluir
  4. Laurinha,

    Sempre fico tocado com o seu texto.

    Assim como você e ele, sei que amigo é amigo independente do tempo e distância...

    Beijos saudosos...

    ResponderExcluir