quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Filosofia pianística

Pra quem não sabe, estudei sete anos de piano clássico. Faz tempo, foi dos 11 aos 17 anos de idade e, durante todo esse tempo, o piano foi uma grande parte da minha vida. Ainda é, como permanece importante tudo aquilo que fez parte da nossa formação, mas de uma maneira diferente. Hoje o piano é um pouco minha terapia, um pouco meu porto seguro, um pouco meu passatempo. E como todo passatempo, a gente só lembra dele quando tem tempo, por isso (e por causa de Paris), meu pobre Fritz Dobbert, velhinho (mas honesto) e desafinado (mas que também tem um coração, como já dizia o poeta) andou meio abandonado nos últimos tempos.

Hoje, quando cheguei em casa depois de um encontro com amigos, deu vontade. Desenterrei umas partituras empoeiradas, sentei como deu no banquinho meio bambo, meio quebrado, e não só toquei como toquei peças que nem lembrava que existiam. E, à medida que lembrava das notas, lembrava também das aulas, escolas e professores por que passei - e não foram poucos. E, no meio de uma música, mais especificamente no 28º compasso da Valsa de Petrópolis de Arnaldo Rebello, pensei que, talvez eles não saibam, mas todo professor de piano é meio filósofo.

Eu explico. No 28º compasso dessa peça, você tem que fazer um acorde arpejado com um trinado na última nota - com a mão direita. Ou seja, o trinado sobra para o quarto e quinto dedos, os mais infelizes pra essa missão, enquanto os outros seguram o restante do acorde. Pra quem não tem a mínima idéia do que eu estou falando, é mais ou menos como assobiar, chupar cana e plantar bananeira, tudoaomesmotempoagora. Aí lembrei que, quando estava tirando a música junto com a professora, ao chegar nesse compasso soltei um "Mas como que eu vou fazer isto aqui???" E ela, do auge da sua sabedoria, respondeu muito calmamente "Ah, tem que fazer..."

E lá fui eu, repetir o compasso zilhões de vezes por dia, correndo o risco de ser apedrejada pelos vizinhos, até acertar. Porque tinha que fazer. E fiz. Como adolescente estudante de piano, eu não sabia, mas a partitura da minha vida (brega, mas ilustrativo) ainda traria muitos trinados e arpejos. Coisas que parecem impossíveis, mas que a gente simplesmente tem que fazer. E faz. Meus 28ºs compassos se chamaram faculdades, mudanças, textos impossíveis, deadlines incumpríveis, relatórios inimagináveis, contas impagáveis, clientes neuróticos, chefes nervosos... E, no final, a gente ouve o resultado e diz "poxa, mas ficou legal, né?" O que me lembra de outra aula de piano, mas isso é outra história...

3 comentários:

  1. Putz, fiz um 28˚ hoje e nem sabia!

    Me lembrou aquele ditado: Sem saber que era impossível, ele foi lá e fez.

    Beijo

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  2. Acredite Laurita, ela sabe que é filósofa! Talvez o que ela não saiba é que há alguns alunos que se interessem por filisofia pianística!!!
    bjs!!!

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